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In parthenos inter filias regis: o episódio de Aquiles na corte de Licomedes em Excidium Troiae

In parthenos inter filias regis: The episode of Achilles at the court of Lycomedes in Excidium Troiae

Gelbart Souza Silva
Universidade Estadual Paulista - UNESP/IBILCE - São José do Rio Preto - SP - Brasil, Brasil

In parthenos inter filias regis: o episódio de Aquiles na corte de Licomedes em Excidium Troiae

Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-9, 2025

Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Recepción: 08 Abril 2023

Aprobación: 22 Agosto 2025

Resumo: O presente trabalho apresenta a tradução do episódio da estadia de Aquiles na corte do rei Licomedes na obra latina Excidium Troiae (c. IV-VI d.C.). O texto trata da mitológica ocultação de Aquiles por sua mãe, Tétis, que o disfarça como mulher entre as filhas de Licomedes. Embora anônima, Excidium Troiae sugere influência de fontes clássicas e pode ter sido uma compilação medieval baseada em textos anteriores. Partindo da edição fornecida por Atwood e Whitaker (1971), a tradução para o português visa a tornar acessível uma obra ainda pouco conhecida da academia brasileira.

Palavras-chave: Mitologia, Guerra de Troia, Excidium Troiae, Aquiles.

Abstract: The present article presents the translation of the episode of Achilles’ stay at the court of King Lycomedes in the Latin work Excidium Troiae (c. 4th-6th centuries AD). The text addresses the mythological concealment of Achilles by his mother, Thetis, who disguised him as a woman among Lycomedes’ daughters. Although anonymous, Excidium Troiae suggests the influence of classical sources and may have been a medieval compilation based on earlier texts. Drawing on the edition provided by Atwood and Whitaker (1971), the Portuguese translation aims to make this work, still little known in Brazilian academia, more accessible.

Keywords: Mythology, Trojan War, Excidium Troiae, Achilles.

Aquiles, o lendário guerreiro grego imortalizado por Homero na Ilíada, é conhecido por sua bravura na Guerra de Troia. No entanto, antes de sua gloriosa carreira militar, o herói viveu um episódio curioso, que não consta da obra homérica. Reza a mitologia que sua mãe, a ninfa Tétis, preocupada com o destino do filho, vestiu-o com trajes femininos e escondeu-o entre as filhas de um rei chamado Licomedes. É a esse episódio, de um Aquiles travestido de mulher, que se dedica o recorte aqui traduzido e comentado de Excidium Troiae.

A anônima Excidium Troiae é uma obra da prosa latina de teor mitológico, provavelmente composta como nos chegou entre os séculos IV e VI d.C.1 Seu conteúdo abarca desde o casamento de Peleu e Tétis até o reinado de César Augusto. Quanto ao seu gênero, Atwood e Whitaker (1971, p. xviii), considerando a possibilidade de Excidium Troiae ter retirado seu relato de um precedente grego, afirmam que sua forma em latim “foi quase certamente concebida como um manual para a instrução dos jovens”.2 Na mesma linha, Bate (1986apud Yavuz, 2014, p. 161) considera que o material encontrado nessa obra serviria de subsídios educacionais para as gerações sucessivas. Colaboram para essa opinião as regressões3 e expressões explicativas (por exemplo, Quid multa?, Redeamus ad causam e dicere habes), as quais estabelecem uma organização na obra diferente da esperada para um texto puramente de fruição, ou de teor poético.

A maior parte de Excidium Troiae encontra paralelos nas fontes clássicas (Atwood; Whitaker, 1971, p. xi-xii), mas quase nenhuma conexão com obras tardias, como as crônicas troianas de Díctis e Dares. Acresce a notícia de Abrantes (2015, p. 37-8) a respeito de Excidium Troiae apresentar cenas não encontráveis em outras fontes, como o certame entre Marte e um dos touros de Páris, passagem que justifica a idoneidade do pastor e sua capacidade de desempenhar o papel de juiz na disputa entre as deusas.4

Para Atwood e Whitaker (1971, p. xiii), forçosamente se deve considerar que essa obra anônima teria sido uma redação posterior de uma mais antiga crônica latina de tema troiano, em tempos clássicos, cujo autor latino “original” teria se baseado diretamente em fontes gregas. Corrobora para essa afirmação o suposto “sabor grego” na linguagem da obra (Atwood; Whitaker, 1971, p. xvi).

Abrantes (2017, p. 77) entende ainda que nem de uma mesma lavra seria essa redação, mas de pelo menos duas fontes diferentes derivaria essa compilação, haja vista, por exemplo, “um mesmo herói ser chamado Odisseus na primeira parte mas Ulixes na segunda”. Atwood e Whitaker (1971, p. xiv) acrescentam que o conhecimento demonstrado concernente à literatura antiga dificulta a afirmação de que seja, de fato, um texto medieval. Não obstante, pode ter sofrido alterações ou sido compilado então já na Idade Média com base em fontes anteriores (Abrantes, 2017, p. 77), conservando uma temática já há muito de interesse e gosto do público. Quanto à sua transmissão e recepção, é curioso observar com Yavuz (2014, p. 163-4) que Excidium Troiae se situava ao lado de obras consideradas “históricas”, e isso se deve à noção de “herança troiana”, iniciada no uso poético-político-cultural virgiliano do mito de fundação romano.

Quanto ao episódio selecionado para a tradução, os editores Atwood e Whitaker (1971) são da opinião de que essa parcela, em linhas gerais, aponta para Estácio como fonte. No entanto, não parece, afirmam ainda, ter sido diretamente baseado na Aquileida. Outras fontes latinas que contam o episódio são Ovídio, nas Metamorfoses (XIII, 161-70), e Higino, nas Fábulas (96). Quanto aos textos gregos, vale mencionar Apolodoro e Filóstrato.5 Os tragediógrafos Sófocles e Eurípides teriam escrito duas obras cujo tema seria a estadia de Aquiles em Ciro.6 Há outras menções do episódio na literatura antiga, bem como atestação de certa predileção por esse episódio da juventude de Aquiles na arte imagética, a exemplo de representações em sarcófagos romanos (cf. Giraud, 2006; Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae, I, p. 37-65).

Por fim, a tradução que segue, inédita em nossa língua, é anotada e comentada, focalizando aspectos textuais e intertextuais, com o fito de construir um mínimo de erudição para o leitor. Assume-se como base a edição fornecida por Atwood e Whitaker (1971, p. 9-10). A versão em português procura manter uma leitura sem um grande afastamento da língua latina, embora essa decisão pese na fluidez.7 O objetivo é, pois, fornecer um primeiro texto em português para que se possa cotejar e estudar a obra original. Com isso, busca-se fornecer mais subsídios para o estudo da transmissão do mito troiano e da tradição e recepção clássicas em linha histórica.

Texto latino e tradução

Opinio per totam provinciam peragravit reginam de palatio ad filium regis Troianorum cum omnibus divitiis fuisse eiectam.Por toda a província, correu a notícia de que a rainha8 partira do palácio com todas as riquezas para junto do filho do rei dos troianos.9
Que opinio ad Agamemnonem regem et Menelaum maritum eius ubinam fuerunt pervenit.A notícia de onde eles estavam chegou ao rei Agamêmnon e ao marido de Helena, Menelau.
Hoc audientes furore magno accensi utrique ad urbes suas venerunt.Ao ouvirem isso, foram inflamados de grande furor e cada um voltou à sua cidade.
Et congregatis mille navibus et decem ducibus cum exercitu magno, faventibus eis Iunone et Minerva, quia dolebant circa Paridem pro iudicio mali aurei, ad Troiam producunt, ut impleretur quod mater eiusdem Paridis antea per somnium viderat, quia per Paridem Troia periret.Então, congregados mil navios e dez comandantes com um grande exército, Juno e Minerva favorecendo-os, porque elas se deploravam com Páris diante de sua decisão sobre o pomo dourado),10 eles se direcionaram a Troia para perpetrar aquilo que a mãe desse mesmo Páris anteriormente vira em sonho: que, por causa de Páris, Troia pereceria.11
Redeamus ad causam.Voltemos ao assunto.12
Paris vero accepta Helena ad Troiam venit et domum Priami regis patris sui cum uxore sua ingressus est, et ibi cum fratribus suis esse cepit.Páris, de fato, depois de tomar Helena para si, voltou a Troia; ele, com a sua esposa,13 entrou na casa de seu pai, o rei Príamo, e ali passou a morar junto com seus irmãos.
Agamemnon vero et Menelaus Troiam cum mille navibus et decem ducibus obsederunt, ubi foras muros templum Minerve constituerunt, et consuluerunt quidnam eis futurum esset.Por outro lado, Agamêmnon e Menelau cercaram Troia com mil navios e dez comandantes, onde construíram, fora dos muros, um templo a Minerva e consultaram qual lhes seria o futuro.
Responsum est eis nisi per Achillem Pelei et Tetidis filium nullo modo posse Troiam adiri.A resposta lhes foi: a não ser por meio de Aquiles, filho de Peleu e Tétis, de maneira alguma Troia poderia ser vencida.14
Et ceperunt cogitare ubinam poterat esse iste Achilles, et quia fama hoc habuit quia in domo Licomedis regis in parthenos inter filias regis, id est Didamiam vel alias, secretim habebatur, Odisseus et Diomedes acceptis ornamentis virginum vel armis ad Licomedem regem in similitudine legatorum, ac veluti ab Agamemnone et Menelao directi, pergunt, ubi venientes tale mendacium finxerunt, dicentes:Passaram então a cogitar onde poderia estar este Aquiles. Havia boatos de que ele estava secretamente em casa do rei Licomedes, como uma donzela15 entre as filhas do rei, isto é, Didâmia e16 outras; Odisseu e Diomedes, depois de tomarem ornamentos para moças e armas, conforme foram orientados por Agamêmnon e Menelau, dirigiram-se ao rei Licomedes na figura de embaixadores. Logo que chegaram, inventaram a seguinte mentira, dizendo:
‘Petunt te Agamemnon et Menelaus reges nostri ut eis auxilium ad Troiam des.’“Agamêmnon e Menelau, nossos reis, pedem a ti que lhes envies auxílio a Troia”.
Quibus ille respondit:Respondeu-lhes ele:
‘Tractemus et vobis responsum dabimus.’“Trataremos disso, e então vos daremos uma resposta”.
Illi dixerunt: ‘Si precipis offeremus munera, iube ut infantes salutemus.’Disseram eles: “Se recomendas que ofereçamos presentes, manda que saudemos as crianças”.
Rex dixit: ‘Salutentur a vobis infantes, et munera que portatis eis offerte.’O rei disse: “Sejam as crianças por vós saudadas, e lhes ofertai os presentes que vós trazeis”.
Odisseus vero et Diomedes accepto scuto ornamenta que virginibus competunt composuerunt necnon et sagittas, et ad filias regis sicut preceptum fuerat ingressi sunt.Então Odisseu e Diomedes, depois de pegar um escudo, arranjaram sobre ele os ornamentos que competem a moças e também flechas, e foram em direção das filhas do rei conforme fora antes recomendado.
Inter quas etiam Achilles in similitudinem virginis fuit, rege patre earum ignorante quia vir fuit, quoniam in similitudinem virginis illi a matre sua commendatus fuerat.Entre elas, também estava Aquiles vestido de virgem;17 e o rei, pai delas, não sabia que era ele homem, pois sua mãe lhe recomendara vestir-se de virgem.18
Quas Odisseus et Diomedes cum muneribus salutaverunt;Odisseu e Diomedes saudaram-nas com os presentes;
et dum singule virgines unaqueque ad ornamenta manum mitterent, Achilles vero non tulit nisi tantummodo sagittam, quam digitis repercutiens ab Odisseo et Diomede agnitus est.enquanto todas as virgens lançaram a mão uma por uma sobre os ornamentos, Aquiles, porém, nada pegou a não ser somente a flecha. Ao tocá-la com os dedos, foi reconhecido por Odisseu e Diomedes.
Et continuo Diomedes tuba cecinit.Imediatamente, Diomedes soou a tuba.19
Achilles vero dum tubam canere audivit, furia armorum invasus, scutum et astam in manu cepit, calce repercutiens tunicam muliebrem qua vestiebatur concidit, et caligam de pede eius exuit.Aquiles, por sua vez, logo que ouviu a tuba soar, invadido pela fúria das armas, tomou escudo e lança em mãos, jogou ao chão a túnica feminina com a qual se vestia, chutando-a para trás, e tirou de seu pé a cáliga.20
Cui Odisseus et Diomedes dixerunt:Odisseu e Diomedes disseram-lhe:
‘Iusserunt te Agamemnon et Menelaus reges una nobiscum ad Troiam venire, quia sic eis responsum est, quoniam per te Troiam poterit adiri’.“Os reis Agamêmnon e Menelau ordenaram que venhas conosco a Troia, porque assim lhes fora predito, já que Troia somente poderá ser vencida por intermédio de ti”.
Hoc cum Didamia filia regis, quam occulte pregnaverat et de ea postea Pyrrum genuerat, vidisset quia Achilles ad Troiam ducitur, ad pedes eius cum filio suo Pyrro se prostravit.Quando Didâmia, a filha do rei, viu que Aquiles, que em oculto a engravidara e de quem depois teve Pirro,21 seria conduzido a Troia, aos pés dele prostrou-se com seu filho Pirro.22
Que ita deprecata est ne eam dimitteret.Ela então suplicou que ele não a deixasse.
Achilles vero Didamiam vel Pyrrum filium suum Licomedi regi commendavit, ne ab eo negaretur, et cum Odisseo vel Diomede ad Troiam profectus est.Aquiles, contudo, ao rei Licomedes confiou Didâmia e seu filho Pirro, a fim de que este não fosse rejeitado; então, na companhia de Odisseu e Diomedes, dirigiu-se para Troia.
Quem honorifice Agamemnon et Menelaus susceperunt, et cepit una cum eis in exercitu Troiam obsidere.Agamêmnon e Menelau receberam-no com honras, e este, junto com eles no exército, passou a sitiar Troia.

Referencias

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Notas

1 Para discussão sobre autoria, datação e evidências de manuscritos, cf. Yavuz (2014).
2 Texto original: “was almost certainly intended as a handbook for the instruction of the young”.
3 É o caso, por exemplo, do fim do episódio aqui traduzido. Depois de narrar que Aquiles partira para Troia e fora recebido honrosamente por Menelau e Agamêmnon, o texto latino promove uma regressão com uma expressão organizacional: Et dicere habes: quare Achilles inter virgines inventus est? (“E te deves questionar: por que Aquiles se encontrava entre as virgens?”), depois começa a relatar a infância do herói.
4 A tradução do episódio do julgamento de Páris se encontra em Silva (2023).
5 No texto sobre os heróis, mas há uma descrição também de Calístrato.
6 Também grafada como Esquiro.
7 Por exemplo, busca-se usar o paradigma distintivo de segunda pessoa “tu” e “vós”, embora a tendência brasileira pareça ser o uso das formas de terceira.
8 A saber, Helena.
9 A saber, Páris.
10 Esse episódio, o pomo da discórdia, é narrado em trecho precedente em Excidium Troiae e constitui sequência do casamento de Peleu e Tétis, cena que abre a obra.
11 Também narrado anteriormente. Segue o trecho em latim: iste Paris filius fuit Priami regis Troianorum, de Hecuba regina natus; quem dum regina adhuc pregnans in utero haberet - per somnium vidit se peperisse flammam, que totam Troiam circuit et eam incendit. O sonho de Hécuba é muito conhecido e remontaria a Píndaro, em um de seus fragmentos (Peã VIIIa), provavelmente expressando a voz de Cassandra no momento da partida de Páris do palácio troiano rumo à Grécia: “Cronida de ampla visão, cumprirás(?)... / os sofrimentos aporcionados ... / quando a vitória Hécuba ... Dardanida / ... certa vez a visão em suas entranhas, / quando carregava este varão; pois parecia / dar à luz o portador do fogo,...” (ρ[ύ]οπα Κρονίων τέλεῖς σ̣ / πεπρωμέναν πάθαν ἁ[ / νίκα Δαρδανίδαις Ἑκάβ[ /..] ποτ’ εἶδεν ὑπὸ σπλάγχ[νοις / φέροισα τόνδ’ ἀνέρ’. ἔδοξ̣[ε γὰρ / τεκεῖν πυρφόρον ἐρι[ /; Delfito, 2020, p. 36; grifo nosso). A Ilíada, porém, não menciona essa visão (Werner, 2021, p. 583). Em Higino, do fogo que Hécuba via, em sonhos, parir, saíam muitas serpentes. Para outras variantes, veja-se Ruiz de Elvira (1982, p. 399-400).
12 Essa expressão e outras, como “Quid multa?” e “dicere habes”, indicam certo cariz didático da obra, o que leva os críticos a entenderem Excidium Troiae como um manual sobre a mitologia romana. Qualifico “romana” porque a última parte, síntese da fundação de Roma, manifesta sua vertente mais virgiliana ao ligar a grande urbe a Troia. Contudo, vale recordar que o texto latino que apresentam Atwood e Whitaker (1971) provavelmente, como eles apontam passim, seria uma reelaboração medieval de um texto latino anterior. Explica De Marco (1956, p. 47) que, uma vez considerado útil para formação cultural, o copista que remanejou o texto inseriu de sua lavra perguntas que chamam a atenção do leitor para o conteúdo seguinte. Esse expediente de formulação não aparece em R, em que a narração corre livre, a qual também apresenta outras discrepâncias em relação ao que apresentam Atwood e Whitaker.
13 O status de Helena parece ser legitimado neste ponto. Para mais, veja Roisman (2006). Na crônica troiana de Dares, por exemplo, Príamo concede Helena como “cônjuge” a Páris Alexandre (Helenam maestam consolatus est, et eam Alexandro coniugem dedit, De excidio Troiae historia, XI).
14 Apolodoro (III, 13.8) atribui a Calcas a profecia sobre Aquiles, que fora direcionada a Tétis.
15 In parthenos significa “na forma/semelhança de virgem”. Segundo as notas críticas dos editores, a construção se repete em outros momentos na obra e há usos análogos dessa colocação em Virgílio (Eneida, XI, 771: in plumam) e em Tácito (Anais, VI, 42: in barbarum). Na tradução, opta-se por “donzela”, para se contrapor aos usos de virgo.
16 Em latim, vel, termo que, no período clássico, é advérbio e conjunção com caráter prioritariamente alternativo e disjuntivo. Contudo, no Latim Medieval (cf. Strecker, 1680, p. 65; Sidwell, 1995, p. 397; Harrington; Pucci, 1997, p. 36; Norberg, 2007, p. 25), funcionava como conjunção aditiva. No texto de Excidium Troiae, no trecho acima, é esta última a interpretação adequada.
17 Sobre o travestimento de Aquiles, veja-se especialmente Heslin (2005).
18 Veja-se o texto de Aquileida (I,318-337) e a explicação de Moreira (2014).
19 Em Apolodoro (III, 13,8), toca-se especificamente a salpinx (σάλπιγγι χρησάμενος εὗρε); em Higino (XCVI), é também a tuba (et subito tubicinem iussit canere), mas nem em um ou em outro indica que fora Diomedes o tocador. Em Estácio, refere-se, de início, apenas Ulisses: Dulichia proferre tuba; mas depois nomeia o trombeteiro a comando do itacense, cujo nome era Agirte: (...) [Achilles] Iam pectus amictu /laxabat, cum grande tuba sic iussus Agyrtes / insonuit (I, 874-876; “[Aquiles] já sobre o peito a veste soltava, quanto (como ordenado) fez soar a grande tuba”).
20 Interessante notar que o calçado aqui descrito é tipicamente romano. Segundo o dicionário Faria (versão online), é um sapato com atacadores (usados principalmente pelos soldados rasos romanos), do qual depois deriva caligatus, “soldado raso”, o que seria relativo anacronismo. Ademais, concernente ao tópico do monosandalo, veja-se Chrétien (2018).
21 Pirro, chamado também Neoptólemo (Cf. Apolodoro, Biblioteca, III, 13,8). Seu primeiro nome derivaria da alcunha assumida por Aquiles quando travestido de mulher, Pirra. Higino assim explica que “chamaram [Aquiles] Pirra, já que era de cabelos dourados e, em grego, ruivo se diz pyrrhon” (Pyrrham nominarunt, quoniam capillis flavis fuit et Graece rufum “pyrrhon” dicitur). Seu segundo nome, a considerar o Heroico de Filóstrato, deriva da impetuosidade demonstrada por Aquiles, de seu o espírito jovem: Νεοπτόλεμος ὀνομασθεὶς τοῦτο διὰ νεότητα τοῦ Ἀχιλλέως.; como explica Brandão (2014), o nome seria a junção de formas néos e pólemos cujo conjunto se entenderia “jovem guerreiro”. Sói aos textos míticos não precisar a passagem temporal, mas Ruiz de Elvira (1982, p. 344), baseando-se no dado de Apolodoro, afirma que a estadia de Aquiles em Ciros deve ter durado, no mínimo, seis ou sete anos, visto que, quando Calcas fez o anúncio profético a Tétis, o Pelida contava nove anos (ὡς δὲ ἐγένετο ἐνναετὴς Ἀχιλλεύς; Apolodoro, Biblioteca, III, 13,8).
22 Cf. Estácio, Aquileida, I, 907 e sequência.

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